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A Identidade do Eleitor, artigo de Ralph Murphine

11/04/2017

Por trás dos cabelos grisalhos, dos 50 anos de profissão comemorados em 2017 e das infinitas milhas percorridas pelo mundo, sempre atrás de onde haja uma boa campanha eleitoral, esconde-se um sábio com energia de menino, cheio de entusiasmo e com uma visão extraordinária sobre o futuro. Esse é Ralph Murphine, o consultor de vários presidentes e que escolheu a América Latina como seu lar. Tenho uma admiração e gratidão infinitas por ele, tanto pelo profissional, quanto pelo ser humano que é, sempre disposto a compartilhar seus conhecimentos. Para homenagear essa figura ímpar, deixo aqui um de seus recentes artigos, publicado originalmente na excelente Revista Beerderberg. Agradeço ao Xavier Peytibi – que também é citado no artigo de Ralph – pela gentileza de autorizar a sua publicação aqui no MarketingPolitico.com, em português.
No artigo, Ralph se refere ao ebook de Xavier Peytibi, Seis historias que explican el triunfo de Donald Trump, que você pode baixar aqui: www.xavierpeytibi.com.
Boa leitura!

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A IDENTIDADE DO ELEITOR

Ralph Murphine

Em um recente ebook denominado “Seis histórias que explicam o triunfo de Donald Trump”, Xavier Peytibi oferece um olhar brilhante e multidimensional da evolução da vida política nos Estados Unidos. Em um exemplo de dissonância cognitiva, meu entusiasmo pelo seu trabalho se baseia em estar de acordo com o que creio que é um conceito fundamental na vida política e na comunicação política: a multidimensionalidade.

Por essa razão, um dos livros mais importantes sobre o pensamento político, em minha opinião, é uma obra do professor Harry Weinberg, Levels of Knowing and Existence: Studies in General Semantics (1959). Sua desconhecida fama (um oxímoro) se produz pela suposição de que o livro contém uma explicação de algumas das ideias da semântica geral inicialmente teorizada por Alfred Korzybski em seu livro Science and Sanity (1933). Contudo, creio que o trabalho de Weinberg tem um valor independente, não apenas pela sua acessibilidade e capacidade de entendimento, mas também porque (em termos modernos) é mais fácilmente aplicável ao “mundo real”.

Se me permitem, quero apontar uma extensão menor de um dos conceitos weinberguianos: a identidade. A ideia é tecida proeminentemente através do texto de Peytibi. No mundo político, a identidade está em constante conflito com a multidimensionalidade. A pressão para reduzir a complexidade à simplicidade é enorme. Na política e no governo, ainda, pode causar um grande dano.

Na análise original de Korzybskian, um ponto importante sobre a identidade se expressa na frase “O mapa não é o território”. Em termos políticos, a aplicação de uma identidade arbitrária geográfica, demográfica, psicográfica, filosófica ou de outra índole (identidade como mapa) a um eleitor ou a um grupo de eleitores, não significa que a identidade exista como uma realidade políticamente produtiva. A categorização é um exercício útil que ajuda no estudo de objetos heterogêneos. Não é um indicador confiável do pensamento ou atividade humana individual.

Alguém que compreendeu bem este conceito foi o filósofo francês Michel Foucault. Segue aqui um parágrafo do prefácio se seu livro, As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas.

Este livro surgiu pela primeira vez de um texto de Borges. Do riso que sacode, ao lê-lo, tudo é familiar ao pensamento – ao nosso: ao que tem nossa idade e nossa geografia -, transformando todas as superfícies ordenadas e todos os planos que ajustam a abundância de seres, provocando uma grande hesitação e inquietude em nossa prática milenar do Mesmo e do Outro. Este texto cita “uma certa enciclopédia chinesa” onde está escrito que “os animais se dividem em: (a) pertencentes ao imperador, (b) embalsamados, (c) adestrados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cães de rua, (h) incluídos nesta classificação, (i) que se agitam como loucos, (j) incontáveis, (k) desenhados com pincel fino de pelo de camelo, (l) etcétera, (m) que acabam de quebrar o vaso, (n) que de longe parecem moscas.” No assombro desta taxonomia, o que se vê de imediato, o que, por meio desta fábula, se nos apresenta como encanto exótico de outro sistema de pensamento, é o limite do nosso, a crua impossibilidade de pensar isso. 

Observe-se que estas categorias, estabelecidas pelo autor da enciclopédia chinesa, em grande parte existem no mundo real. A questão não é sua existência, é sua utilidade. A aplicação arbitraria de uma identidade definida externamente a grupos e seres humanos pode ter um valor físico ou filosófico. Os “jovens” não são “velhos” (demografia). As pessoas “urbanas” não são “rurais” (geografia). Os “conservadores” não são “esquerdistas” (ideologia). Os “democratas” não são “republicanos” (política). E assim, Antoní Gutierrez-Rubi me perdoa, “millennials” não são “baby boomers” (marketing).

A criação (definição) dessas identidades externas é um negócio em crescimento. Que triste que muitos líderes políticos são suficientemente ignorantes para crer que representam o mundo real.

Dizem: “Necessitamos envolver mais mulheres na campanha!” Mas, em termos políticos, as “mulheres” não existem. Assim como os “homens”, as mulheres têm opiniões amplas, profundas, às vezes contraditórias sobre a vida, sobre si mesmas, sobre suas famílias, sobre suas comunidades y – surpresa – sobre a política. Mais especificamente, “os eleitores da Carolina do Norte” não existem politicamente. A confusão entre o mapa de identidade de grupo e a realidade de um voto pessoal é quase universal.

Ah, foi a mudança de votos das mulheres entre 30 e 40 anos de idade, com educação secundária, que vivem em “swing states”, que haviam votado por Romney, mas que disseram nos grupos de discussão que tinham medo dos banheiros transgêneros, que mudou o sentido do voto. Um acúmulo arbitrário de categorias humanas é igualmente inútil.

Ah, Ralph, mas há “tendências”! Sim. E existem uma porção de xamãs no mundo, preparados para interpretar as folhas de chá (ou o vôo das aves até o norte, ou as pesquisas de opinião pública) por uns honorários não tão modestos.

Esta definição artificial, linear, estática (identidade) dos grupos de cidadãos, dos eleitores e das pessoas envolvidas na distribuição do poder entre os seres humanos é um hábito difícil de mudar. O resultado é uma repetição do debate teológico teórico que alguma vez tiveram os Padres da Igreja: quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete?

Deveríamos cancelar as pesquisas nas ciências sociais e política? Não. O que devemos entender é que as categorias, divisões, agrupamentos e segmentos encontrados ou utilizados para tratar de entender os humanos não são premonitórios. Diferentemente da ciência “pura”, não necessariamente se pode replicar os resultados de uma medida tomada com base nos resultados da pesquisa (ou de uma infinidade de mecanismos de investigação social).

Então, a probabilidade conta? Sim. Porém, não pode depender, com confiança, das prováveis ações políticas (votos) de velhos e arbitrários agrupamentos de eleitores.

Se pode identificar o equivalente político dos “cães de rua” ou dos “animais que pertencem ao imperador” do prefácio de Foucault. Não obstante, cada candidato, cada partido, cada eleição, em cada área geográfica, se reorganiza automaticamente, reagrupa, reclassifica aos membros de cada eleitorado. Impor velhos segmentos a novos eleitores é perder eleições. Tenha em conta também que simplesmente chamar de outro modo aos antigos segmentos também não funciona.

Em um mundo cada dia mais dependente da Internet, onde fazer parte de uma rede social é um hábito que cresce rapidamente, é difícil entender a insistência de categorizações velhas e pouco confiáveis.

Cuidado! O Facebook desenvolveu uma forma de ler e analisar as comunicações por correio eletrônico (sem a identificação do remetente ou do receptor). Os usuários, com obstinada determinação, rapidamente segmentam as mensagens (incluindo os trolls) por conteúdo. “Uma pessoa que envia um email crítico ao Presidente, provavelmente votará contra o Presidente”. Este é um exemplo quase perfeito do poder o pensamento linear e não multidimensional.

Muito mais valioso é o já velho sistema multidimensional de algoritmos do “Big Data”, mas atualizado e melhorado diariamente por um grande número de especialistas mundiais em tecnologia da informação, incluindo o Facebook.

O número de categorias de pensamento político definindo a identidade dos eleitores no presente e o número de categorias de potencial ação política futura por esses eleitores devidamente identificados tem aumentado geométrica e logaritmicamente, pela troca de opiniões na Internet.

O desafio é levar os líderes políticos ao reconhecimento desta mudança como parte integral do século XXI: onde estão e como são os eleitores que necessitam para ganhar y manter o poder político. Infelizmente, Seis histórias para entender o triunfo de Donald Trump mostra ainda a distância a se percorrer nos Estados Unidos.

 

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